sexta-feira, 28 de maio de 2010

A TRISTEZA PERMITIDA

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Martha Medeiros

sábado, 15 de maio de 2010

Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão!




Hoje, coloco o texto que sempre me chamou muito atenção e que me ensinou que não posso ficar parada no tempo, preciso e devo continuar sob qualquer circunstância!

Texto maravilhoso de Fernando Pessoa!

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu...
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é! Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és...
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

VIVER NÃO É DISCRETO! Ainda bem, discrição demais, reflete razão demais, e razão demais, remete à falta de paixão! Já pensou como tudo seria chato, sem sabor e sem cor, se não houvessem riscos?
Somos seres racionais por natureza. Foi assim que fomos feitos, com um cérebro. Mas, além disso com muito sentimento, de todos os tipos e de todas as intensidades...

E acredito que é aí que reside o espetáculo da vida, na imprudência que existe em andar na corda bamba entre a razão e a emoção. É o não se deixar vencer pelo cérebro sempre, e ser levada só, pelo coração em algumas situações.
Sou totalmente encantada pelo ser humano... Esse ser contraditório nos sentimentos, nos sentidos! Esse ser que vive contraditoriamente acerca do bem e do mal, da indiferença e do amor, do certo e do errado, enfim, da razão e da emoção.

Creio que as pessoas que são fascinantes são aquelas que passam por esse mundo deixando marcas profundas, e fazem isso, porque não se intimidam com o fato de errar, que não se envergonham em parecer ridículo, que cometem loucuras em prol da felicidade, que têm coragem de sentir, de arriscar, de se entregar, de lutar incansavelmente pelo que acreditam, que não cansam de amar, amar e amar... E não estou me referindo a amar uma pessoa... Mas, amar as coisas, amar uma flor, uma paisagem, um livro, uma música, amar a vida, enfim, simplesmente AMAR!
Se você já conversou com uma pessoa passional e espetacularmente sensível você deve ter percebido que em tudo o que elas falam e fazem há empolgação, os olhos iluminam, os rostos se enchem de expressões, tem sorrisos, tem lágrimas, tem vida! Elas transmitem paixão por aquilo que apreciam, e essa emoção nos contagia! Essas pessoas são mais do que fascinantes, elas são apaixonantes!
Jesus Cristo... Gandhi... Luther King! Não quero compará-los enquanto importância histórica e religiosa. Cito aqui, para dar exemplo de alguns que amaram a humanidade com tal força, que deram tudo por ela. Tinham uma paixão enorme por seus ideais humanitários, queriam mudar o mundo e lutaram por isso! E a questão aqui é: Paixão é racional? Esses “exemplos” que citei foram racionais? Racionalmente respondendo, NÃO! Isso lhes custou a própria vida e dar a vida por uma causa que nem é só sua não é racional... Isso é emoção, é coração, é AMOR!

Não acredito que eles estavam errados, acredito somente que eles foram “imprudentes” o suficiente para ouvir seus corações, dar voz à aquilo no que acreditavam, e com isso, fazer a diferença!

Mas enfim, mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que o amor, muitas vezes, é irracional não quero e não vou permitir que a racionalidade excessiva me faça abandonar o poder que meu coração tem de amar, sem nenhuma razão pra isso! Eu mando pro espaço essa razão que tenta cortar minha capacidade de ser apaixonada, louca e contraditoriamente humana!

Eu não quero ser extremamente racional, assim como não quero ser extremamente emocional, não quero viver uma vida “sem gosto e sem sabor”, não quero passar por aqui sem ter cometido ao menos uma loucura, assim como não quero passar por aqui sem deixar um pouquinho da minha razão aos outros!

Emocional? Louca? Racional? Humana? Que seja! Essa sou eu.